Políticas de mobilidade: um legado positivo da crise

24 jun 2020

Gustavo Gracitelli – CEO do Bynd

Ainda que não tenhamos uma projeção concreta sobre a solução da crise referente ao COVID-19, já sabemos que algumas transformações impostas pela pandemia vieram para ficar, entre elas, as políticas de mobilidade urbana. Acredito que algumas mudanças foram tão profundas e evidenciaram benefícios de tal modo que pessoas e empresas perceberam falhas no modelo estrutural antigo e não vão aceitar retroceder.

Vamos pegar o exemplo a política de home office. Pouquíssimas empresas adotavam a prática e as objeções eram quase sempre as mesmas: é difícil disponibilizar tecnologia e infraestrutura para viabilizar a operação do colaborador, a produtividade e os resultados vão cair, entre outros. O fato é que muitas empresas se adaptaram rapidamente ao trabalho remoto e, para a surpresa do mercado, a maior parte dos profissionais se sentiram mais produtivos.

É o que revela um estudo realizado pela Pulses, startup de clima organizacional, engajamento e performance. De acordo com o levantamento, 78% dos brasileiros se sentem mais produtivos trabalhando em casa. A pesquisa foi respondida por 17 mil colaboradores de 179 empresas – sendo 80% delas startups. Para 90% dos respondentes, a comunicação com a empresa e com a liderança vai muito bem. Além disso, 78% afirmam ter uma estrutura razoável para trabalhar.

Esses dados, evidentemente, nos levam a outros diversos questionamentos. O primeiro deles se refere ao tempo gasto no trajeto casa-trabalho-casa. Para se ter uma ideia, os paulistanos levam, em média, uma hora e meia, todos os dias, para ir e voltar do trabalho, de acordo com levantamento da Prefeitura de São Paulo, com base nos
dados das Pesquisas Origens e Destino e divulgada no final de 2019.

Tendo em vista a sensação de produtividade e a qualidade de vida no home office, faz sentido para esse colaborador voltar a se deslocar (e se desgastar) todos os dias para ir trabalhar? Será que agora ele vai aceitar essas condições, mesmo sabendo que pode entregar melhores resultados em melhores condições? Passando mais tempo com sua família?

A empresa, por sua vez, descobriu que seu colaborador entrega mais em casa, além de receber a possibilidade de trabalhar remotamente com um benefício. Isso sem falar na redução de custos para as empresas que optarem por operar 100% dessa forma, como está acontecendo agora.

Posto isso, sabemos que boa parte das empresas não vão aplicar de forma integral a política do home office, por diversas razões. Esse cenário nos leva para um segundo questionamento: como os colaboradores vão se deslocar para o trabalho em um cenário de retomada, mas ainda em meio aos riscos da pandemia? Existem algumas possibilidades aqui.

A OMS declarou recentemente que caminhadas e o uso da bicicleta deveriam ser incentivados, pois são os modais mais seguros e que oferecem o melhor distanciamento social. De certo as empresas devem incentivar essa prática, mas também sabemos que elas não serão capazes de atender toda a demanda.

Uma outra possibilidade é o uso mais consciente do automóvel. De acordo com dados da CET, 64% dos carros de São Paulo circulam com apenas uma pessoa dentro. Ou seja, tem muita vaga disponível em carros que possivelmente vão para o trabalho. No entanto, apenas 6% das empresas concedem programa de caronas ou desconto no estacionamento para quem oferece carona, de acordo com o Índice de Mobilidade
Corporativa, estudo publicado no fim de 2019 e que traça o panorama de mobilidade corporativa no Brasil.

Considerando o cenário de pandemia, o que será mais seguro para os colaboradores: se dirigir ao trabalho em um ônibus ou metrô lotados ou de carona, com no máximo mais duas pessoas no carro, todos de máscara e vidros abertos? Pensando ainda mais adiante, quando que essa fase for superada: não é muito mais inteligente ocupar mais e melhor os carros? As pessoas viajariam mais confortáveis, o congestionamento
iria diminuir e a poluição seria reduzida. Todos ganhariam com essa possibilidade.

Por fim, o fato é que a crise do COVID-19 escancarou algumas questões de tal forma que não há mais volta. É óbvio que ninguém está feliz com o isolamento social e todos torcem para volta às atividades o mais rápido possível. No entanto, todos também sabem que o modo de vida que levávamos antes da pandemia nos esgotou. Podemos sair dessa muito melhores do que entramos.

*Artigo publicado no Estadão Mobilidade em 28/05/2020

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